O Brasil nunca conviveu com uma taxa de juros tão baixa quanto a atual, por tanto tempo e de forma sustentada, isto é, amparada pelos fundamentos da economia e aceita pelos agentes econômicos. O fenômeno ainda está restrito à taxa básica de juros(Selic), que é calibrada pelo Banco Central, reflete o custo do dinheiro no país e, por essa razão, serve de referência para todo o mercado. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) baixou a taxa Selic para 5,5% ao ano, mais um recorde de baixa, e indicou pelo menos mais um corte, para 5%, até o fim do ano – grandes bancos apostam que 2019 terminará com Selic inferior a 5%.

Ato contínuo às decisões do Copom, no dia seguinte a B3, a bolsa de valores de São Paulo, estipula o juro real dos contratos futuros de juros com base no custo do dinheiro naquele momento, descontada 1,37 a inflação projetada para os 12 meses seguintes. Com base nos valores calculados pela B3, o Valor Data chegou a um juro real neste momento de 1,37% ao ano, o nível mais baixo desde o lançamento do real, em 1 de julho de 1994.

O atual movimento cadente dos juros é muito diferente daquele que levou a taxa Selic para 7,25% ao ano em outubro de 2012, derrubando o juro real em dezembro daquele ano para 1,39% ao ano. Ocorre que aquele nível de juros não era sustentável, porque a inflação estava acima da meta, na ocasião de 4,5%, as expectativas estavam fora de controle e a equipe econômica não tinha credibilidade. Por causa disso, apenas seis meses depois, o BC teve que iniciar ciclo de alta.

Hoje, a inflação está abaixo da meta, as expectativas estão ancoradas e o mercado respalda o compromisso do Ministério da Economia com as reformas. Analistas apontam que o componente cíclico do cenário para o juro real envolve a recuperação lenta do PIB e risco de desaceleração da economia global. “O juro neutro tem caído com o avanço das reformas e com o cenário internacional que também traz juros reais de equilíbrio menores”, afirma Solange Srour, economista-chefe da ARX. No entanto, ela adverte: “Não acho que este seja o novo normal no Brasil, porque o crescimento que estamos vendo hoje está muito aquém do potencial”.