O que esperar do cenário econômico para o 2º semestre

No início deste ano, o economista do Itaú André Matcin, deu uma entrevista para a Supermix sobre as possibilidades para o cenário econômico de 2022. Porém, após tantas mudanças e incertezas, conversamos novamente com ele para atualizar as previsões e ajudar os leitores a iniciarem o segundo semestre mais bem preparados.

Como você enxerga a economia até o final deste ano e no próximo, e qual a expectativa para o PIB, inflação, taxa de juros?

A conjuntura econômica brasileira ao longo deste ano segue se ajustando, com a política monetária cada vez mais próxima de encerrar seu ciclo de alta de juros, o que deve contribuir para a desaceleração da inflação à frente, ainda que sua dinâmica siga pressionada na margem.
No time econômico do Itaú, projetamos um crescimento do PIB de 1,6% em 2022, com atividade econômica robusta no primeiro semestre, mas desacelerando na segunda metade do ano, sob efeito da elevação das taxas de juros pelo Banco Central. Para 2023, projetamos crescimento do PIB de 0,2%. Do lado da inflação, ainda vemos um cenário de preços pressionados, mesmo com redução de impostos, mas que aos poucos tem espaço para desacelerar à frente. Projetamos o IPCA 2022 em 8,7%, refletindo uma desinflação ainda lenta de bens e serviços, que devem seguir pressionados ao longo do segundo semestre. Adicionalmente, avaliamos que as medidas de redução de impostos atualmente em discussão têm potencial de impacto baixista sobre as projeções deste ano. Para 2023, projetamos a inflação do IPCA em 5,6%, já levando em conta alguma reversão dos cortes de impostos, além de maior persistência do processo inflacionário. Sob a ótica da política monetária, acreditamos que o ciclo de aperto monetário se encerrará na reunião de agosto, com alta da taxa Selic em 0,50 p.p., para 13,75% a.a. Esperamos redução de juros ao longo de 2023, para 9,75% a.a., com cortes apenas no terceiro trimestre.
Como você pensa que o setor de varejo irá se comportar nos próximos meses? Qual a sua sugestão para os varejistas neste segundo semestre?

Dentre os fatores que vêm sustentando as vendas no varejo, inclusive no varejo alimentar, até o segundo trimestre deste ano, destacamos as medidas que impulsionam a renda – como a liberação do FGTS, adiantamento do 13º salário para aposentados e pensionistas do INSS e reajustes salariais para servidores públicos estaduais e municipais. Olhando à frente, projetamos alguma perda de dinamismo da atividade econômica no segundo semestre, com queda da renda disponível das famílias, uma vez que parte dessas medidas econômicas têm efeitos temporários, e que o efeito contracionista da política monetária deve ficar mais forte. Em particular sobre os juros mais altos, o impulso negativo que isto traz para a atividade deverá ser sentido com mais intensidade daqui para frente, uma vez que a taxa de juros real entrou em patamar contracionista (isto é, acima do neutro), apenas no final de 2021, com impactos sobre a atividade econômica que tendem a ser defasados e mais concentrados na segunda metade deste ano.

Em um ambiente de ajustes econômicos, com inflação ainda pressionada e juros em patamares contracionistas, é fundamental o varejista se planejar a fim de alcançar uma boa gestão de custos, estoques e ciclo de caixa.

A principal data para o varejo é o Natal. Como deve estar o otimismo e o poder de compra do consumidor até o período das festividades de fim de ano?

Apesar do impulso negativo da política monetária e a expectativa de recuo na renda disponível das famílias, observamos um desempenho robusto do mercado de trabalho nos últimos meses, com queda na taxa de desemprego e crescimento da renda real do trabalho. Em abril, por exemplo, com o crescimento do emprego formal e informal, a taxa de desemprego (com ajuste sazonal) recuou de 10,9% para 10,1%, mesmo com a recuperação da taxa de participação, indicando pouca ociosidade no mercado de trabalho. Em meio à combinação de dados mais fortes do mercado de trabalho e perspectiva mais benigna para atividade econômica, projetamos uma taxa de desemprego em 11,0% ao final deste ano e 12,3% ao final de 2023, níveis estes, apesar de mais altos que os patamares correntes, melhores do que os anteriormente projetados.

Este contexto, somado à continuidade da reabertura da economia deve continuar ajudando a sustentar uma melhora na confiança dos consumidores. Por outro lado, é importante destacar que as pressões inflacionárias ainda elevadas no Brasil atuam na direção contrária, impactando negativamente o poder de compra das famílias.

Como se comportará a economia em um ano político e quais os desafios para quem for eleito?

No Brasil, a necessidade de se avançar com a agenda de reformas estruturantes e manter a responsabilidade fiscal são temas importantes para que a administração a ser eleita, independente de bandeira partidária ou ideológica, terá que endereçar. Um risco negativo a se monitorar para o cenário fiscal é o aumento do escopo e da duração das medidas de redução de tributos, em voga no noticiário atual, para além de 2022. Em nosso cenário econômico prospectivo, temos como hipótese que o orçamento público, a ser aprovado após as eleições, ainda estará sob as regras do teto de gastos, recentemente ampliado. Além disso, o governo deverá definir ao longo de 2023 o arcabouço fiscal que será válido a partir de 2024.

E o câmbio, como fica? Já que temos um viés de exportação de Comodities?

Projetamos a taxa de câmbio em R$ 5,25 por dólar ao final de 2022 e R$ 5,50 por dólar em 2023. Por um lado, os preços médios de commodities mais altos, o crescimento robusto no primeiro semestre do ano e a taxa Selic elevada ao longo do ano são fatores importantes que podem continuar atuando na direção de atrair fluxos de capitais para o Brasil no curto prazo. Por outro, atuam na direção de uma moeda mais depreciada a desaceleração doméstica no 2º semestre do ano, as incertezas ainda presentes sobre o crescimento global e as dúvidas relacionadas à evolução das contas públicas e à sustentabilidade fiscal brasileira nos próximos anos.

Como fica o apetite do investidor para a renda variável (bolsas), em meio ao cenário econômico atual?

O aumento da percepção de risco doméstico, diante dos desafios fiscais elevados, e o aumento das taxas de juros locais, contribuem para reduzir as expectativas em relação à demanda futura. Adicionalmente, o ciclo de altas de juros nas economias centrais, como é o caso dos EUA, leva a uma redução do apetite ao risco dos investidores internacionais, afetando negativamente a demanda por ativos de economias emergentes.

Neste contexto, apesar da conjuntura econômica mais desafiadora para a bolsa de valores, tais correções podem criar janelas de oportunidade para a entrada neste mercado a preços mais atrativos. No entanto, vale notar que esta decisão precisa estar adequada ao perfil de risco de cada investidor, uma vez que essa classe de ativos costuma apresentar uma volatilidade mais elevada.

Como será o comportamento da economia global daqui para frente? E sobre EUA, Europa e China?

Acreditamos que os riscos de uma recessão global iminente parecem exagerados, considerando o crescimento resiliente nos EUA e na Europa e a reabertura na China. No entanto, esses fatores não devem trazer um alívio significativo e duradouro para preços de ativos, uma vez que a inflação elevada irá levar a maiores taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa.

Em particular sobre os EUA, o desempenho da atividade econômica segue resiliente até o segundo trimestre do ano. Olhando à frente, esperamos desaceleração da atividade com o aumento da taxa básica de juros pelo Fed, mas esse processo será gradual devido a fatores econômicos que suavizam esse movimento, como um balanço das famílias saudável no país. Sob a ótica da política monetária, a desaceleração moderada do crescimento econômico e inflação muito alta devem levar o Fed a subir a taxa básica de juros para 3,75%-4,00% em 2022 e 4,00%-4,25% em 2023.

Na Europa, a atividade econômica segue resiliente mesmo no cenário de guerra prolongada e divórcio energético da Rússia. Ainda assim, esperamos maior fraqueza adiante, à medida que as sanções energéticas pesam sobre a atividade econômica e o impulso associado à reabertura se dissipa. Para o PIB, projetamos crescimento de 2,5% na região em 2022 e 2,0% em 2023. Sob a ótica da inflação, as pressões de preços seguem elevadas e generalizada na região, com sinais incipientes de pressão salarial. Neste contexto, avaliamos que o Banco Central Europeu eleve os juros para 1,0% até o fim do ano (0,25 p.p. em julho, 0,50 p.p. em setembro e outubro, e 0,25 p.p. novamente em dezembro).
Já na China, o surto da variante Ômicron parece ter sido contido em maio, possibilitando o início do processo de reabertura na região. No entanto, aumentos recentes de novos casos em Pequim mantém a comunidade internacional em estado de atenção. Com o risco do vírus ficando cada vez mais para trás, há espaço para uma recuperação do crescimento econômico chinês no segundo semestre, ainda assim representando uma recuperação mais lenta do que a observada após o choque de Covid em 2020. Projetamos crescimento do PIB chinês de 4,2% em 2022 e 5,0% em 2023. Temos uma visão cautelosa para o próximo ano por causa de fortes ventos contrários: reequilíbrio da atividade doméstica em direção a consumo/serviços com o fim do impulso vindo das exportações, além do possível ressurgimento de atritos geopolíticos entre Estados Unidos e China.

Qual a sua orientação aos supermercadistas em relação à economia, já que o nosso setor sempre foi o último a entrar na crise e o primeiro a sair?
O desempenho do setor supermercadista tem um histórico de resiliência à evolução dos ciclos econômicos, uma vez que lida com bens de consumo essenciais para a vida das pessoas. Mais uma vez, estamos observando essa dinâmica no ciclo econômico atual. Prospectivamente, a orientação é seguir atento às perspectivas econômicas, pois permite ao supermercadista se preparar durante momentos de maior desafio e aproveitar as oportunidades que podem surgir.

Fonte: Supermix