“Quem se antecipar vai garantir, quem deixar pra cima da hora poderá ter que mudar o presente.” A dica é do empresário Lucas Lima, proprietário da loja on-line Brinquedeiro, com sede em Curitiba. Ele garante que para o Natal haverá oferta de todos os produtos, porém, em quantidades bem menores. “Vai faltar produto”, prevê.

A escassez de mercadorias não afeta um único setor. Além de faltar, o que estiver disponível vai ficar, em média, 10% mais caro, antecipam empresários e especialistas. Alguns produtos devem registrar alta ainda maior, considerando os custos de transporte e matéria-prima importada.

A elevação nos preços e a redução nas opções se devem a vários fatores, como à alta do dólar, do combustível e da demanda, à falta de contêineres e insumos por conta da pandemia e, ainda, pela instabilidade econômica no Brasil.

“A indústria está comprando mais caro. Houve elevação no custo dos insumos e da matéria-prima, o que tem afetado os preços no mercado brasileiro”, avalia o economista Evânio Felippe, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

“Quando se busca isso lá fora é necessário converter e analisar taxa de câmbio, bandeira tarifária, tarifa de energia elétrica, combustível. Isso tudo tem pressionados os custos da produção no Brasil, e no Paraná não é diferente. A atividade industrial acaba virando refém desse movimento, que reflete na ponta final do consumo”, diz ele.

O frete é uma das variantes. “Seguimos com congestionamentos nos portos, o aumento da demanda por produtos, o atraso de navios, a falta de contêineres e o aumento significativo nos casos de covid-19 na China complicou ainda mais a situação”, avalia o diretor da transportadora de cargas ES Logistics, Fabiano Ardigó.

De acordo com ele, pode haver consequências de longo alcance na Black Friday e nas temporadas de compras de fim de ano. “É provável que estes atrasos atinjam os proprietários das cargas, grandes varejistas e até pequenas lojas, que terão que lidar com atrasos em mercadorias e custos de transporte mais altos em seus pedidos para final de ano.”

Para o Natal, o impacto virá principalmente nos presentes e na decoração, já que a China responde por 60% da fabricação dos enfeites natalinos, aponta Ardigó. “Temos duas situações preocupantes: uma, na entrega em tempo dessas importações; outra, no custo final do produto, que, com os valores exorbitantes de frete, com certeza serão maiores.”

Na análise do CEO Rodrigo Lagreca, da startup Energia das Coisas, a falta de componentes elétricos acaba gerando uma tensão no mercado. “Sinto como um freio involuntário, pois há receio de não poder entregar vendas de alto volume, fora o custo de alguns componentes, que chegou a triplicar nos últimos meses, inviabilizando todo e qualquer planejamento”, revela Rodrigo, destacando que a disponibilidade de compra é baixa e o valor inflacionou. “O componente, que antes pagávamos menos de U$ 2, passou para U$ 7”.

Flavia Carneiro, gerente administrativo-financeiro da Madeira Plástica Ambiental S.A, confirma que a falta de matéria-prima fez com que insumos básicos aumentassem seu custo de forma desenfreada. “Alguns receberam mais de 250% de aumento, além da dificuldade em encontrar, programar compras antecipadas, comprar mais do que precisava. O impacto no fluxo de caixa disto tudo está sendo um dos grandes desafios”, diz ela. “Nossos clientes consequentemente sofreram da mesma maneira, pois foi necessário um reajuste de quase 30% em toda linha de produtos.”

O setor de bebidas, como o vinho, que cresceu 31% em 2020, sente a escassez de embalagens, como garrafas e caixas de papelão. “As empresas estão retirando tudo o que a fábrica dispõe, o que não é o suficiente. Algumas empresas estão apelando para outras embalagens, como bag in box ou embalagens pet para vinhos de mesa”, conta Darci Dani, diretor executivo da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi).

Eletros devem ficar entre 7 e 10% mais caros

A indústria de eletroeletrônicos no Brasil estima um crescimento de 5% na produção deste ano, frente a 2020. “Esta é uma projeção realizada com base em um otimismo moderado diante do atual cenário macroeconômico”, enfatiza Jorge Nascimento, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).

“Registramos aumentos de custos expressivos em insumos como aço e plástico que são muito utilizados em nossos produtos. O aço registrou aumento superior a 100%. Já o transporte sofre impacto pelo aumento da demanda internacional e escassez de contêineres, que em alguns casos tiveram aumentos superiores a 1000%. Esse é um problema que afeta todo o setor produtivo e não apenas nossa indústria.”

Ainda assim, pondera Jorge, haverá uma gama de produtos e soluções acessíveis aos consumidores na Black Friday e no Natal, quando os reajustes nos preços ao consumidor devem ficar entre 7% e 10%.


Expectativas para o ano de 2022 são incertas

Na avaliação do economista da Fiep, 2022 dependerá de um conjunto de fatores. “Os níveis dos reservatórios de água no Brasil ainda estão baixos, o que encarece a energia. Os fretes estão caros, e são a base para tudo. Essa variável também é um elemento importante para o desempenho das atividades econômicas no ano que vem”, diz Evânio Felippe.

“Precisamos entender que a retomada não será imediata, e que irá necessitar de um acompanhamento”, ressalta o consultor Rui Rocha, da Partner Consulting. “A China sofreu um retrocesso nas expectativas de crescimento e, até que normalize, viveremos num ambiente mais caro e não apenas pela escassez.”

Planejar 2022 exigirá do empresário muita cautela, sugere o consultor. “Precisaremos entender toda a situação do mercado (…) lembrando que 2022 ainda mostra um cenário turbulento devido às eleições. No Brasil, o processo eleitoral sempre impactou a economia. Por isso, muita cautela ao pensar no próximo ano”, conclui.

Análise

O impacto nos brinquedos

Os impactos do mercado internacional chegam mesmo aos setores nos quais a indústria brasileira lidera, como é o caso dos brinquedos. O Paraná é o quinto maior na produção brasileira deles. As seis fábricas paranaenses do setor representam 6,5% do mercado nacional, que teve um crescimento de 14% em 2021. A previsão para o próximo ano é de que a cifra seja 21% maior.

Os números são da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), que vê a indústria nacional ocupando o espaço dos importados, com 75% do mercado. Segundo o presidente da Abrinq, Synésio Costa, a queda das importações de brinquedos neste ano foi de 49%.

“O quadro se deve às dificuldades dos fabricantes chineses, a disponibilidade de contêineres, os fretes para o Brasil e a insegurança do dólar, além da epidemia de covid-19”, analisa Synésio.

Com isso, apesar do crescimento da indústria nacional, a elevação de preços dos brinquedos ao consumidor final vai acompanhar o encarecimento dos insumos, muitos vindos de fora do país.

“Todos os representantes já vêm anunciando para antecipar pedido, pois mais próximo do Natal maiores serão os reajustes, principalmente nos mais buscados, como bonecas, carrinhos de controle remoto e patinetes”, observa Lucas Lima, da loja Brinquedeiros, na qual 60% dos produtos vêm de fora do país. O empresário enfatiza que para o Dia das Crianças foi possível atender a todos, “mas para o Natal não dá pra prometer”.