Resiliência, eficiência e diálogo: os caminhos do varejo alimentar para 2026 – João Galassi | JValério

Resiliência, eficiência e diálogo: os caminhos do varejo alimentar para 2026 – João Galassi

10/02/2026

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O presidente da ABRAS, João Galassi, analisa o desempenho do varejo supermercadista em 2025, os desafios macroeconômicos, as conquistas institucionais e as prioridades do setor para 2026

 

O varejo supermercadista brasileiro encerrou 2025 com resultados positivos e perspectivas animadoras para o próximo ano. Em entrevista exclusiva à Revista Supermix, o presidente da ABRAS, João Galassi, analisa o desempenho do setor, os desafios macroeconômicos, os avanços institucionais conquistados e as prioridades da entidade para 2026. A conversa aborda temas como consumo, eficiência operacional, segurança, gestão de pessoas e o papel do diálogo institucional na construção de um ambiente mais competitivo e sustentável para o varejo alimentar.

 

  1. Como o senhor avalia o desempenho do setor supermercadista em 2025 e quais são as perspectivas para 2026 diante do ritmo atual da economia brasileira?

O desempenho do setor supermercadista em 2025 foi bastante positivo e confirma a força e a resiliência do varejo alimentar brasileiro. O consumo nos lares acumulou alta de 2,85% de janeiro a novembro, acima da própria projeção do setor, que era de 2,70% para o ano, o que mostra um mercado aquecido e dinâmico. As famílias brasileiras seguem consumindo, mas de forma mais consciente, buscando melhor relação custo-benefício, o que favorece o papel dos supermercados como principal canal de abastecimento. Esse movimento está diretamente ligado à recomposição do padrão de consumo, impulsionada pela sequência de quedas nos preços dos alimentos ao longo dos últimos meses, em um cenário de mercado de trabalho aquecido e nível de desemprego mais baixo. Além disso, os programas de transferência de renda e os recursos adicionais do governo federal ajudam a sustentar o consumo das famílias. Para 2026, a perspectiva é de continuidade desse ciclo positivo, com o setor atento à eficiência, à competitividade e às oportunidades que surgem em um ambiente econômico mais favorável ao consumo.

 

  1. Quais fatores macroeconômicos devem exigir maior atenção do varejo alimentar no próximo ano, especialmente inflação, juros, renda das famílias e custos operacionais?

O varejo supermercadista brasileiro é hoje um dos setores mais eficientes da economia. Em 2025, o índice de eficiência operacional medido pela ABRAS atingiu 98,11%, com um nível de ineficiência de apenas 1,89%, resultado de um trabalho contínuo de profissionalização, gestão rigorosa e investimento em tecnologia. Essa eficiência é construída a partir da otimização de processos, da adoção de melhores práticas e do uso de inteligência de dados para orientar decisões e identificar tendências. Nesse contexto, a atenção para 2026 segue voltada para inflação, juros e renda das famílias, fatores que impactam diretamente o comportamento do consumidor, mas o setor chega a esse cenário preparado, com produtividade elevada e capacidade comprovada de adaptação e crescimento sustentável.

 

  1. 2026 será um ano eleitoral importante. Na sua visão, de que forma o ambiente político pode influenciar consumo, investimentos e a confiança no setor supermercadista?

O setor supermercadista é essencial para o abastecimento da população e acompanha de forma constante o ambiente econômico e institucional do país. Estar presente todos os dias na vida das famílias brasileiras nos faz valorizar a estabilidade, o diálogo e decisões equilibradas, que tragam segurança para o planejamento, para os investimentos e para a manutenção do emprego e do abastecimento em todo o Brasil, mesmo em contextos de maior movimentação no calendário político.

 

  1. Este ano trouxe conquistas estruturais como os avanços na cesta básica e as mudanças no sistema de vouchers. Como o senhor avalia esses resultados e o impacto prático para o setor?

Os avanços na cesta básica e as mudanças no sistema de vouchers foram conquistas estruturais muito relevantes. A Cesta Básica Nacional de alimentos livre de impostos representa um marco histórico. Ela está prevista na Constituição Federal e tem um impacto direto na segurança alimentar das famílias brasileiras, ao ampliar o acesso a alimentos essenciais. Foi um trabalho intenso de articulação e defesa liderado pela ABRAS, que teve, inclusive, reconhecimento da Câmara dos Deputados em uma das sessões solenes mais prestigiadas do Congresso Nacional.

No mesmo sentido, a modernização do Programa de Alimentação do Trabalhador foi uma mobilização importante do varejo alimentar. Depois de quase cinquenta anos, o vale-alimentação e o vale-refeição passaram por uma atualização necessária. Com o decreto do Governo Federal, esses benefícios passam a operar com regras mais transparentes e mais justas, com limites para as taxas e prazos menores de reembolso. Isso reduz distorções, aumenta a competitividade no varejo e fortalece o poder de compra do trabalhador. A ampliação da interoperabilidade das maquininhas, com custos menores, também permite que mais mercados, mercearias, padarias e restaurantes aceitem os benefícios, ampliando as opções para o consumidor e reforçando o papel dos supermercados como canal essencial de abastecimento.

  1. A ABRAS teve papel central nessas negociações. Quais aprendizados ficam desse processo e quais pontos ainda precisam avançar em 2026?

O principal aprendizado desse processo foi a importância da articulação técnica e institucional baseada no diálogo e na construção coletiva. As conquistas alcançadas foram fruto de um consenso construído a várias mãos, com muitas conversas, escuta ativa e alinhamento entre diferentes atores. Em todas as etapas, o foco esteve nas pessoas, especialmente no trabalhador e nas famílias que dependem diariamente desses mecanismos para garantir sua alimentação. A ABRAS atuou de forma propositiva, com dados, responsabilidade e espírito colaborativo, e agora o desafio para 2026 é avançar na consolidação e na correta implantação dessas mudanças, para que seus efeitos positivos se materializem plenamente.

 

  1. Do ponto de vista da gestão de pessoas, vivemos pleno emprego, turnover elevado, dificuldades de contratação, escala 5×2, novas exigências trabalhistas e desafios trazidos pela NR-1. Como o senhor enxerga esse cenário para o varejo alimentar?

Do ponto de vista da gestão de pessoas, esse é um dos temas mais desafiadores e, ao mesmo tempo, mais estratégicos para o varejo alimentar. Vivemos um cenário de pleno emprego, alta rotatividade e dificuldades de contratação, somado a novas exigências regulatórias e a mudanças no perfil do trabalhador, que busca cada vez mais equilíbrio entre vida profissional, pessoal e familiar. Esse contexto nos convida a repensar modelos de jornada, organização do trabalho e as próprias relações trabalhistas.

Defendo a ampliação da flexibilidade da jornada, inclusive o modelo horista, como uma forma de valorizar a liberdade do trabalhador e respeitar seus projetos de vida. Há quem queira trabalhar mais em determinado período para reforçar o orçamento e há quem precise reduzir a carga horária para conciliar trabalho com estudos ou outras responsabilidades. Dar essa possibilidade de escolha, com regras claras e direitos preservados, é reconhecer a diversidade das realidades e oferecer mais autonomia, sem abrir mão da segurança. Para o varejo alimentar, esse caminho contribui para tornar o setor mais atrativo, reduzir a rotatividade e fortalecer uma relação de trabalho mais moderna, equilibrada e humana.

 

  1. A segurança nas lojas voltou ao centro do debate diante do aumento de furtos, ameaças e violência. Quais são as ações prioritárias da ABRAS para apoiar as redes e avançar nessa agenda tão sensível?

A questão da segurança é uma pauta que a ABRAS irá trabalhar de forma ainda mais firme e estruturada em 2026. Trata-se de um desafio que não é exclusivo do Brasil, mas uma preocupação mundial que afeta o varejo em diferentes países. O aumento de furtos, ameaças e episódios de violência impacta diretamente colaboradores, consumidores e a operação das lojas.

Por isso, entendemos que essa é uma agenda que precisa ser enfrentada de forma conjunta, em diálogo permanente com o poder público. O setor tem feito a sua parte, investindo em prevenção, tecnologia e capacitação, mas é fundamental avançar em políticas públicas mais eficazes, que garantam segurança jurídica e proteção para quem trabalha e consome. A ABRAS seguirá atuando como ponte entre o varejo e as autoridades, buscando soluções equilibradas e responsáveis para um tema tão sensível e prioritário.

 

  1. A prevenção de perdas segue evoluindo como tema estratégico. Que caminho as redes devem seguir para reduzir perdas sem comprometer a experiência e a confiança do cliente?

Hoje, a prevenção de perdas já não pode ser tratada como um tema isolado. Ela faz parte de um conceito mais amplo de eficiência operacional, no qual o varejo supermercadista brasileiro é referência. Somos um dos setores mais eficientes da economia e os números comprovam isso. Em 2025, o índice de eficiência operacional medido pela ABRAS atingiu 98,11%, com apenas 1,89% de ineficiência, resultado de uma gestão cada vez mais profissional, orientada por dados, tecnologia e boas práticas.

Quando falamos em eficiência, estamos falando de processos bem estruturados, equipes capacitadas, uso inteligente de tecnologia e decisões baseadas em informação. Esse é o caminho para reduzir perdas de forma sustentável, sem comprometer a experiência do cliente e sem romper a relação de confiança que é essencial no varejo alimentar. A pauta da segurança está integrada a esse esforço e seguirá na agenda do setor, sempre com uma abordagem equilibrada e em diálogo com o poder público, porque eficiência também é cuidar das pessoas, dos consumidores e de quem trabalha diariamente nas lojas.

 

  1. Pensando em 2026, quais serão os grandes focos da ABRAS em representatividade – no diálogo com o governo, na defesa do setor e na construção de um ambiente mais competitivo?

Em 2026, a ABRAS seguirá atuando na defesa do setor e no diálogo institucional qualificado com o governo e o Congresso Nacional, com atenção especial a pautas que impactam diretamente o dia a dia das famílias brasileiras. A segurança será uma grande prioridade da entidade, tratada como uma agenda central e permanente, em articulação com o poder público, por envolver a proteção de trabalhadores, consumidores e das operações do varejo alimentar.

Além disso, há outras agendas igualmente relevantes. Entre elas, o apoio à implantação das novas regras do vale-alimentação e do vale-refeição, oferecendo suporte aos supermercadistas na adequação e, ao mesmo tempo, levando essa boa notícia aos milhões de trabalhadores. Seguiremos também mobilizados, dentre outras pautas, na agenda da Política Nacional de Combate às Perdas e ao Desperdício de Alimentos, com foco na derrubada do Veto nº 35, passo essencial para ampliar a doação de alimentos, reduzir o desperdício e fortalecer a segurança alimentar no país; e continuaremos trabalhando pela aprovação da dosimetria das multas, como instrumento fundamental para garantir proporcionalidade, segurança jurídica e um ambiente regulatório mais justo para quem produz, distribui e abastece o Brasil.

 

  1. O senhor concilia uma agenda intensa de viagens, articulações e compromissos. Como equilibra vida pessoal, família e a responsabilidade de presidir a ABRAS? E, para fechar, qual mensagem gostaria de deixar aos supermercadistas paranaenses para 2026?

Quando o trabalho é feito com propósito e por missão, ele deixa de ser apenas uma agenda de compromissos e passa a fazer parte do projeto de vida. É assim que encaro a presidência da ABRAS. Conciliar uma agenda intensa de viagens e articulações só é possível porque conto com o apoio integral da minha família, que entende essa responsabilidade e me dá equilíbrio e motivação todos os dias. Esse apoio é fundamental para seguir com energia, serenidade e compromisso com o setor e com as famílias brasileiras.

Aos supermercadistas paranaenses, deixo uma mensagem de agradecimento. Sei da força da entrega diária de cada empresário, gestor e colaborador, que mantém as lojas funcionando, abastecendo as famílias e gerando emprego no estado. Aproveito também para parabenizar, especialmente, a APRAS, na pessoa do presidente Harri Pankratz e de toda a sua diretoria, pelo trabalho sério, representativo e comprometido com o desenvolvimento do setor. Que 2026 seja um ano de união, diálogo e avanços para o varejo alimentar do Paraná e do Brasil.

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