Previsibilidade, método e execução: os desafios reais do varejo supermercadista para 2026 | JValério

Previsibilidade, método e execução: os desafios reais do varejo supermercadista para 2026

11/03/2026

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Caio Camargo

 

Em um cenário marcado por oscilações no consumo, incertezas econômicas e mudanças estruturais no trabalho e no comportamento do consumidor, o varejo supermercadista entra em 2026 pressionado por decisões cada vez mais estratégicas. Para Caio Camargo, especialista em inovação, tecnologia e transformação do varejo, o maior risco não está na criatividade, mas na ausência de previsibilidade. “Em ano de oscilação, o que mais machuca não é a falta de ideia, é a falta de previsibilidade”.

Nesse contexto, decisões como gestão de estoque deixam de ser meramente operacionais e passam a ocupar o centro da estratégia. Segundo ele, estoque vira decisão estratégica, enquanto a ruptura deixa de ser apenas um problema do setor e se transforma em perda direta de confiança do cliente. Já as perdas, muitas vezes tratadas apenas como tema de inventário, passam a representar um impacto contínuo nos resultados, uma verdadeira “sangria diária”.

Camargo também chama atenção para a entrega de valor ao consumidor, que vai além do preço. Ele observa que o cliente compara mais, troca marcas e alterna canais com maior naturalidade. “A loja precisa entregar escolhas claras, do básico bem feito ao premium que justifica existir”. Nesse ponto, faz uma crítica direta à postura de parte do varejo ao afirmar que “muita rede ainda opera como se pudesse ‘comprar solução’ para um problema que é método e disciplina”.

 

Escala 5×2 e o redesenho da operação

A adoção da escala 5×2, segundo Camargo, funciona como um verdadeiro raio X da operação. Ele destaca que não se trata apenas de um tema de recursos humanos, mas de um redesenho completo da loja, envolvendo rotinas, picos de movimento, reposição, recebimento, limpeza e tudo o que acontece a partir do momento em que a porta se abre. “Se a operação vive de improviso, a nova escala apenas muda o formato do caos”, alerta.

O caminho, em sua avaliação, passa por padrão de execução, treinamento curto e constante e polivalência real das equipes. Ainda assim, ele reforça que o ponto mais sensível é a liderança. “A escala pode até mudar por regra, mas a produtividade só muda quando o time tem método e alguém cobra o método com consistência”. Para grandes players, a adaptação tende a ser mais viável. “Minha real preocupação está com os micros e pequenos negócios, que têm menos ‘gordura’ para trabalhar a questão, e podem sofrer mais em termos de operação e até mesmo cobertura de horários, além da disputa já difícil hoje pela mão de obra”.

Domingo como hábito de consumo

No debate sobre o fechamento das lojas aos domingos, Camargo adota uma visão cautelosa. Para ele, domingo não é apenas um dia da semana, mas um hábito consolidado. Caso a mudança ocorra de forma integral, com todos seguindo a mesma direção, o consumo não desaparece, ele muda de lugar. “Ele escorre para o sábado, ele se concentra em horários diferentes, ele migra para canais digitais, e também cresce o ‘depois eu vejo’, que muitas vezes vira não compra. Mas para que isso aconteça, reforço que é uma questão onde todos devem remar para a mesma direção”, aponta Camargo.

 

Copa, feriados e eleições no radar de 2026

O calendário de 2026 traz uma combinação incomum de Copa do Mundo, alto número de feriados e Eleições, com impactos distintos sobre o consumo. Camargo avalia que o cenário pode ser positivo para alguns negócios e desafiador para outros, dependendo da oferta e da localização.

“Quando falamos em Eleições, acredito que caso o cenário esteja nebuloso próximo à reta final, sem definição, isso pode criar um comportamento de consumo mais comedido, moderado, se protegendo de mudanças”, explica.

No caso de Copa e Feriados, as alterações são diferentes. A Copa do Mundo impulsiona categorias ligadas ao consumo durante os jogos, como bebidas, salgadinhos e produtos temáticos. Já os feriados podem favorecer operações em regiões turísticas, desde que estejam preparadas para lidar com os gargalos operacionais nos momentos de pico.

 

Pessoas: o básico bem feito como diferencial

A escassez de mão de obra segue como um dos grandes desafios do setor. Para Camargo, três competências se destacam:

1º Confiabilidade – “gente que cumpre, que executa bem o básico todos os dias, isso virou ouro”.

2º Versatilidade – “conseguir operar mais de uma frente com qualidade”.

3º Leitura prática de números – “não é virar analista, é entender giro, ruptura e perda no próprio setor e agir”.

Para atrair e reter profissionais, Camargo é direto: não há milagre, apenas previsibilidade e respeito pela rotina de quem está na ponta. Escalas claras, liderança que treina de verdade, trilhas de crescimento e tecnologia que reduza atritos no trabalho são fatores decisivos. “Veja por exemplo a situação de estados como Santa Catarina, que registrou taxa de desocupação de 2,3% no 3º trimestre de 2025, a disputa por gente fica ainda mais dura, então a empresa precisa merecer ser escolhida”, acrescenta.

Tecnologia: quando o dado muda a decisão

Apesar do avanço nos investimentos, a tecnologia só gera resultado quando muda a forma de decidir. Camargo resume essa diferença ao afirmar que adotar é instalar, integrar é mudar decisão. “Se a reunião continua sendo um festival de opinião e o dado entra só para ‘confirmar’ o que alguém já queria fazer, a tecnologia virou custo com maquiagem”, destaca.

Para ele, a integração real acontece quando o gestor muda sua atuação diária com base em dados confiáveis, rotinas de acompanhamento e responsabilidades claras. “Eu sempre puxo para uma pergunta simples: quem assina embaixo da decisão, e quem responde quando não executa? Sem isso, a tecnologia vira enfeite caro – ou como gosto de chamar, ‘pirotecnologia’ – algo que queima dinheiro da empresa, sem trazer resultado”, alerta Camargo.

Tendência, comportamento e foco no essencial

Para separar tendências duradouras de movimentos passageiros, Camargo adota um critério simples: o que dura muda hábito. Se em 60 dias não houve mudança de frequência, cesta ou canal, provavelmente era apenas barulho. Agilidade, nesse cenário, não significa fazer tudo, mas testar corretamente, com pilotos pequenos, métricas claras e aprendizado registrado. “O varejo se perde quando confunde movimento com transformação, e aí gasta energia correndo atrás de fumaça”.

Entre os comportamentos que mais devem impactar a operação em 2026, ele destaca a consolidação da promoção como hábito, inclusive entre consumidores de maior renda, o avanço da marca própria como escolha e um consumidor cada vez mais omnicanal, que alterna atacarejo, supermercado, aplicativos, e-commerce e formatos de conveniência para abastecer a despensa.

A Kantar mostrou que no 2º trimestre de 2025 a participação de produtos promocionais nas cestas de compras para dentro do lar da classe AB subiu de 14% para 23%, isso é um sinal forte de racionalização e compra mais estratégica.

Marca própria também ganha tração, não só como alternativa barata, mas como escolha. Há levantamento apresentado pela NielsenIQ indicando intenção de ampliar compra de marcas próprias chegando a 58% dos brasileiros. E tem o consumidor cada vez mais “omnicanal”, onde ele alterna atacarejo (como para a lista do mês), supermercado (como para compra semanal), apps, e-commerce e outros formatos para abastecer a despensa (como conveniência). “Isso exige que as marcas entendam uma jornada inteira cada vez mais complexa”, ressalta.

 

Crescer sem inflar a estrutura

Para os supermercados do Sul do Brasil, o grande desafio estratégico será crescer sem inflar a máquina. Em um mercado com mão de obra disputada, contratar mais não pode ser o plano principal. O foco deve estar em perdas, ruptura, execução de padrões e formação de liderança. No fim, como resume Camargo, a maioria dos negócios não quebra por falta de ideia, mas por falhas repetidas no básico. “Andar com o básico, bem-feito, ainda é a melhor estratégia.”

Como moderador de um painel com grandes líderes do Sul na ExpoApras 2026, ele antecipa debates provocativos sobre produtividade com método, escala e jornada tratadas como operação e as mudanças necessárias para manter a competitividade contínua dos negócios. “Todos nós teremos a grande oportunidade de vivenciar e discutir os principais desafios da liderança na visão e aprendizados dos líderes das maiores empresas regionais do setor. Será incrível”, convida Camargo.

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