Caixa, controle e estratégia: o que separa supermercados saudáveis dos que ficam pelo caminho | JValério

Caixa, controle e estratégia: o que separa supermercados saudáveis dos que ficam pelo caminho

21/05/2026

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Gustavo Cerbasi, um dos maiores especialistas em inteligência financeira do Brasil, analisa os principais erros e decisões que impactam a sustentabilidade do varejo alimentar

Em um setor de margens apertadas e alta competitividade, a gestão financeira deixa de ser apenas suporte e passa a definir o futuro do negócio. Crescer sem controle, investir sem planejamento ou ignorar sinais do mercado pode comprometer anos de construção.

Nesta entrevista, Gustavo Cerbasi traz uma visão direta e prática sobre os desafios do supermercadista, abordando desde controle financeiro até construção de patrimônio e tomada de decisão em cenários de incerteza. Um dos principais nomes do país em inteligência financeira, Cerbasi foi palestrante magno da ExpoApras 2026, levando ao público reflexões sobre como transformar a gestão financeira em um diferencial competitivo.

O supermercadista convive com margens apertadas e alta competitividade. Quais decisões financeiras mais impactam a sustentabilidade do negócio no longo prazo?

Quando uma empresa trabalha com margens financeiras dilatadas, como acontece nos serviços, por exemplo, ineficiências financeiras ou falta de controle são razoavelmente administradas diante da compensação que o resultado traz. Na prática, o custo de ter ferramentas de gestão mais eficientes pode não ser compensado pelas perdas pouco relevantes, já que as margens absorvem essas ineficiências. Por outro lado, no setor supermercadista, em que as empresas trabalham com margens estreitas e uma rentabilidade que pode ser altamente impactada por ineficiências, dois elementos precisam estar presentes para que um negócio bem-sucedido do ponto de vista comercial não se torne mal-sucedido do ponto de vista financeiro.

O primeiro ponto é adotar controles eficientes. Isso inclui ferramentas adequadas não apenas de gestão financeira, mas também de gestão de estoques, controle de perdas e furtos e administração da eficiência com que mercadorias circulam em todas as etapas da empresa.  Outro ponto fundamental é o treinamento do colaborador. Ele precisa estar envolvido e engajado nas boas práticas para reduzir perdas, evitar ineficiências e identificar oportunidades de melhoria, garantindo que os produtos mantenham sua qualidade desde a entrada até a saída da loja.

Como equilibrar crescimento, investimentos e controle de endividamento em um cenário econômico instável?

Um cenário econômico instável exige mais cautela, pois traz mais imprevistos e necessidade de ajustes no negócio. Por isso, o ritmo de crescimento e investimento deve ser mais parcimonioso e consistente, evitando passos excessivamente ambiciosos.
Reservas de caixa são fundamentais, especialmente quando indicadores sinalizam possíveis crises ou acúmulo de estoques. Nesses momentos, ações como liquidações ajudam a transformar estoque em caixa.
A redução de custos fixos e a predominância de custos variáveis também são estratégias importantes. Isso pode incluir, por exemplo, optar por imóveis alugados em vez de próprios, ou por estruturas terceirizadas, o que permite maior flexibilidade em momentos de necessidade.
Em períodos de crise, o endividamento tende a aumentar, assim como seu custo. Por isso, empresas com estruturas mais leves têm maior capacidade de adaptação e conseguem atravessar cenários adversos com mais segurança.

Muitos empresários misturam finanças pessoais e empresariais. Quais riscos essa prática traz e como corrigi-la?

A mistura entre finanças pessoais e empresariais é comum em negócios de menor porte e traz riscos relevantes, principalmente do ponto de vista fiscal e contábil.
Sem um controle adequado e ferramentas que separem claramente as contas da empresa, há risco de distorções que podem levar ao pagamento indevido de impostos ou até à interpretação de caixa informal.
Por outro lado, essa relação também tem um lado estratégico importante. O empresário frequentemente precisa equilibrar decisões entre o negócio e a família. Por isso, é essencial integrar o planejamento pessoal e empresarial. Haverá momentos em que a empresa exigirá mais investimento, demandando ajustes no padrão familiar. Em outros períodos, a prioridade pode ser o equilíbrio financeiro da família. Essa alternância, quando bem planejada, contribui para o crescimento sustentável do negócio.

Qual é o erro mais comum que impede empresários do varejo de construírem patrimônio sólido?

Um dos principais erros é não perceber que um negócio próprio gera três formas de renda: pró-labore, distribuição de dividendos e, principalmente, a criação de valor do negócio, o chamado equity. Muitos empresários focam na retirada imediata de recursos, o que limita a capacidade de crescimento da empresa.

Quando há planejamento de longo prazo, é possível equilibrar o uso dos resultados com a construção de valor. Isso permite que a empresa cresça e, ao mesmo tempo, proporcione melhoria gradual na qualidade de vida da família. Em muitos casos, o maior retorno financeiro não vem do pró-labore ou dos dividendos, mas da valorização do negócio ao longo do tempo.

Educação financeira deve fazer parte da cultura organizacional? Como isso pode impactar os resultados da empresa?

A educação financeira deveria fazer parte da formação básica das pessoas, mas, como isso ainda não é realidade, ela precisa ser desenvolvida também dentro das empresas. Existem dois aspectos importantes: a educação financeira pessoal e a corporativa.

A educação financeira pessoal impacta diretamente a produtividade. Famílias financeiramente desequilibradas enfrentam níveis elevados de estresse, o que afeta o desempenho profissional.

Já a educação financeira corporativa contribui para uma gestão mais organizada e eficiente. Empresas que dominam seus processos financeiros conseguem focar no que realmente importa, como qualidade de produtos, atendimento e satisfação do cliente. 

Sem essa cultura, grande parte do tempo da gestão é consumida pela resolução de problemas.

Em momentos de incerteza, é melhor proteger caixa ou investir para crescer? Como tomar essa decisão de forma estratégica?

Em cenários de incerteza, empresas com caixa e postura mais conservadora tendem a sair fortalecidas, pois conseguem aproveitar oportunidades que surgem durante as crises. Em economias como a brasileira, marcadas por ciclos, é importante adotar um crescimento consistente, com planejamento e margem para ajustes. Indicadores como queda de margens, redução do fluxo de clientes ou aumento de estoques são sinais de alerta e indicam a necessidade de maior cautela.
A tomada de decisão estratégica deve ser baseada em indicadores e análise de desempenho, permitindo antecipar movimentos do mercado e agir com mais segurança.

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